Quarta-feira, Maio 30, 2007

ENSAIO SOBRE A POLÍTICA COM ÊNFASE NAS APARÊNCIAS


Zuleido Veras, o Mazzaropi

Lembro de quando assisti A queda: as últimas horas de Hitler. Pessoas cochichavam no busão sobre a semelhança entre o ator principal, o suíço Bruno Ganz, e aquele cara meio cheiradão chamado Adolf Hitler. Nos elevadores corporativos e nos fumódromos da Berrini, então, era a coqueluche: "Você viu como o Bruno Ganz se parece com o Hitler!? Absurdo! Absurdo!". Banheiros públicos do Largo do Arouche continham longas pichações sobre a tal semelhança. Em Engenheiro Marsilac, um amigo comprou pipocas de um pipoqueiro, que disse a ele, enquanto lhe passava o molho: "Acabaram com o Bruno Ganz! Acabaram com o Bruno Ganz! Nunca mais vai se livrar da pecha!".

Pois confesso que vi o filme e nem achei Bruno Ganz tão parecido com Hitler assim. Estava mais para Mazzaropi do que para o ditador alemão. Porém, uns meses depois, muito por acaso, vi um filme italiano em que ele fazia papel de garçom. Pão e Tulipas é o nome, que, posteriormente, fui descobrir ter uma legião de fãs espalhados por aí (eu recomendo. É daqueles filmes que fazem a gente ainda acreditar nas pequenas coisas da humanidade). E foi batata: Bruno Ganz entrou em cena para eu logo apontar: "Olha o Hitler fazendo bico de garçom aí". E o filme passava, a trama se desenrolava, e eu lá, sem saber o nome do personagem, apenas identificando-o como o maitre Adolfo.

Pois bem, pensei em todo este episódio ao ver as fotos deste último lançamento blockbuster da Polícia Federal. Digo blockbuster porque as operações da Polícia Federal me lembram uma invasão hollywoodiana ao Vietnã. Só falta aparecer o Stallone com o jaleco da PF, com aquele olhar de glória e cobiça, a dizer para a câmera: "Zuleidão: você é a doença. Eu sou a cura" - e que conste: isso não é uma crítica. A PF funciona mesmo e isso é bom.

E era justamente do Zuleidão, o corrupto do momento, que eu queria falar. Por dois motivos: primeiro, porque ele é a cara do Mazzaropi e, conseqüentemente, lembra o Bruno Ganz interpretando Hitler. Segundo, para constatar que os vilões destas crises que envolvem Polícia Federal, empresários, políticos corruptos e CPI´s sempre têm caras e nomes estranhos. É sim, repara só.

O primeiro deles foi o Waldomiro Diniz, o menos diferente de todos. O nome Waldomiro é quase simpático até. Lembra aqueles tios que possuem Kombis para levar a criançada à escola ("Volte às aulas feliz na Toppic do Tio Waldomiro Diniz"). O que estragava eram as marcas de espinha na cara dele, o que certamente lhe tiraria votos caso se candidatasse a algo.

Depois veio o Marcos Valério, o Kojak de Varginha. Talvez a grande glória de minha vida foi quando Marcos Valério criou um blog para se defender das acusações de então. Durou umas duas horas apenas, mas, neste período, deixei um comentário que dizia algo como "E aí, Valerião, conta um pouco pra gente do tempo em que você era cabeludo". Pelo menos eu era o único que não xingava o rapaz só porque ele controlava um baita esquema de caixa 2, coitado.

E ainda tinha o Delúbio Soares, os piores dentes da história da corrupção brasileira. Não sei se era excesso de charuto, talvez algum dentista possa dar o diagnóstico preciso. O fato é que, ao ver um Land Rover passando na rua ou a descoberta da arcada dentário de uma múmia fenícia nos jornais, logo lembro do sorriso do Delúbio Soares.

É por isso que eu digo que cara e o sorriso são tudo nessa vida. É por isso que, se as eleições fossem hoje, meu voto iria para José Serra.



Sexta-feira, Maio 25, 2007

COMO DIRIA BEETHOVEN: "É POR ISSO QUE EU BEBO"

Apesar de tudo, simpatizo com o drama alemão. Provavelmente não estou sendo claro com este começo tão direto: quis dizer que me solidarizo com os alemães por não causar empatia por conta das coisas relativas a emotividade.

Isso provavelmente ocorre graças a volúpia gutural da língua alemã, que é capaz de transformar qualquer poeminha de amor adolescente - destes que rimam coração com emoção - soarem como uma ordem da Gestapo. Um tirolezinho pode tirar o chapéu para a tirolezinha em uma casa enxaimel na Bavária e começar a recitar algo como "Ich hobben das Walt Steinmeir Sattelschlipper Forshungsaut Schucrutz Volkswagen Hageen däs". Fosse eu a assistir a cena, chamaria a polícia, na certa, achando que é um apedrejamento moral na pobre coitada. Mas, na hora de traduzir, o menino só queria dizer algo como "eu te amo, meu struddelzinho". E o linchado então seria o Vives.

Pois bem, digo isso porque a única manifestação alemã mais profunda quanto a emotividade que conheço não é falada nem cantada, mas apenas tocada. Refiro-me a Sonata ao Luar, do Beethoven. Pois ninguém tira da minha cabeça que Beethoven compôs a Sonata ao Luar por causa de uma baita dor de corno.

(abre aspas. Olha só que lamentável fui agora: até parece que saí por aí a discutir com as pessoas sobre relações entre o Beethoven e a fossa, e que, pior, as pessoas discordaram categoricamente, como se desse um embate intelectual de alto nível. Se eu discutisse isso com alguém, provavelmente ouviria "é que você não ouviu a última do Wando, meu bem" como resposta. Pelo menos é a resposta que eu daria, porque eu to aqui pra subtrair, não pra remediar. Eu sou um fraude. Fecha aspas).

Talvez eu diga isso influenciado por aquela cena em que o Gary Oldman, a interpretar magistralmente o alemão doidão, tocava a Sonata ao Luar debruçado sobre o piano, pensando na tal amada imortal. Eis então que me pego a pensar: como é abrangente a fossa, como é universal a dor de corno. Se eu, Beethoven, Jesus Cristo, Stalin e o porteiro do meu prédio sentássemos um dia no Baço Verde para bater papo, seria batata: o assunto seria futebol ou a dor de corno, porque no fundo é isso que une os homens. Aliás, eu partiria direto para a dor de corno - "e aí, seu Jesus, como vai essa mulherada?" - porque o porteiro do meu prédio é daqueles flamenguistas aborrecedores.

Ao mesmo tempo, a abrangência das manifestações de fossa também é comovente. Se Beethoven compôs a Sonata ao Luar, Robert Smith, do The Cure, construiu Pictures of You, uma das canções mais simples e profundas que conheço a respeito, falando sobre a mesma coisa, quase duzentos anos depois (claro que não estou comparando uma com a outra, for God sake).

No Brasil, Nelson Sargento resumia a questão ao cantar que nosso amor é tão bonito, você finge que me ama, eu finjo que acredito; Dalva de Oliveira, por sua vez, cultuava a derrota de Laércio Alves em Bandeira Branca, em plena marcha-rancho de carnaval - sempre é bom lembrar que Pierrot e Arlequim viviam um com dor de corno do outro por conta da Colombina. Também foi em um carnaval que Clara Nunes deu um aperto de saudade em seu tamborim, com Tristeza Pé no chão, talvez o seu maior e mais profundo sucesso.

Mas de todas as canções de fossa, eu fico com uma cantada por Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano, conjunto vocal dos anos 60 e 70 que foi feliz ao cantar músicas do cancioneiro popular brasileiro usando os timbres de voz das igrejas dos negros americanos. Chama-se Leva eu, Sodade, de autoria de Tito Guimarães, Neto e Alventino Cavalcanti, três que infelizmente jamais vi tão gordos, e que evoca aquela dor nostálgica de menino que a gente tem, com um sorriso no canto da boca:

Ô Leva Eu
(Minha sodade)
Que eu também quero ir
(Minha sodade)
Quando chego na ladeira tenho medo de cair
(Leva eu)
Leva eu
(Minha sodade)

Menina, tu não te lembras
Daquela tarde fagueira
Tu te esqueces e eu me lembro
Ai, que sodade matadeira
Leva eu

Na noite de São João
No terreiro, uma bacia
Que é p'ra ver se para o ano
Meu amor ainda me via
Leva eu
(minha sodade)

É por isso que a derradeira solução para as crises afetivas foi dada mesmo por Nietzsche em Assim falou Zaratustra, em alto e bom alemão: "Tira a calça jeans, põe o fio dental, morena você é tão sensual". Um romântico.



Quarta-feira, Maio 23, 2007

O CÃO TRAVESTI

Aconteceu comigo, mas poderia ter acontecido com você.

Parti no saguão do meu andar rumo ao elevador do prédio ondo moro. O destino era a garagem, da garagem ao trabalho, como faço todo dia, tudo sempre igual - com a diferença que nenhuma mulé vem me chacoalhar às seis horas da manhã com a boca cheia de hortelã.

Mas não era disso que eu queria falar. Dizia eu que apertei o botãozinho enquanto lia o aviso de que o Mesmo talvez estivesse finalmente parado aqui neste andar. A porta se abriu e, tal qual um Silvio Santos abrindo as Portas da Esperança, dou de cara com uma moça bonita com uma coleira em mãos, que a ligava diretamente a um cão labrador, sentado. Gostei da cena. Não sabia que: 1) Há uma moça (dane-se o cacófato) bonita no meu prédio; 2) Há um labrador no meu prédio; 3) A moça e o labrador moram juntos.

Adentrei o recinto fazendo festa para o bicho que, aparentemente, não foi muito com a minha cara, pois me olhava de soslaio enquanto eu apertava suas orelhas. Perguntei para a dona sobre o nome da criatura, e ganhei uma resposta e um sorriso:

- Bete. Um amor.

Pois brinquei com Bete até ouvirmos o maquinista dizer que estávamos na garagem, desembarque pelo lado esquerdo do elevador. Foi quando tive uma surpresa desagradável, algo que deixaria até Confúcio estupefacto: ao se levantar, Bete saiu rebolando a balouçar um enorme pipi entre as pernas (digo pipi porque crianças podem achar este blogue no Google, o que me obriga a chamar a estrovenga do bicho meramente de pipi. Espero que entendam). Na primeira coluna, Bete ergueu a perna esquerda sem qualquer resquício de sutileza e desaguou um dilúvio de quarenta dias e quarenta noites da mais masculina das urinas.

Entrei no meu carro atônito, pensando nos devaneios da humanidade canina, e dirigi-me ao trabalho em silêncio. Há cachorros machões que se chamam Bete. A modernidade é uma locomia.

Esta noite, ao chegar em casa, encontrei no elevador uma velhinha acoleirada a um yorkshire, que também me olhou de soslaio. Desta vez não perguntei o nome do bicho. Talvez não fosse prudente.



Quinta-feira, Maio 10, 2007

ENQUANTO ISSO, NO SALÃO OVAL DA CAPELA SISTINA...



Comparado a estrelas do cinema, monsenhor "galã" vem ao Brasil , diz o UOL, depois que o defunto do Frias esfriou.

O melhor é o seguinte trecho da notícia:

O padre Georg Gaenswein é o secretário papal e estará na comitiva de Bento 16 que chega nesta quarta a São Paulo. Entre suas funções está acompanhar o Sumo Pontífice em atividades como refeições, audiências e caminhadas. Sempre está no altar ou no papamóvel, pronto para segurar o microfone ou ajeitar a estola do santo padre.

Acredita-se que o Sumo Pontífice, no papel de Batman, e seu fiel Monsenhor galã, no papel de Robin, apenas colocam em prática o Salmo 23: "O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Porque Deus está comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam".

Conservador são vocês, sacripantas de pouca fé.



Quinta-feira, Maio 03, 2007

DEUS MORREU



Dominada pelo sentimento de perda que o jornalismo tupiniquim teve após Octávio Frias de Oliveira, o publisher da Folha de S. Paulo, subir no telhado, a redação de SorryPeriferia mantém-se em estado priápico de abatimento. Os jornalistas de nosso hebdomadário virtual, os linotipistas, a tia do cafézinho, até o Nego Boiça (estagiário da faxina que cursa jornalismo em uma faculdade de nível mediano na Avenida Paulista), todos mostram-se solidários ao pesar dos veículos Folha da Manhã - reza a lenda que três frilas fixos do telemarketing da empresa quase estiveram se suicidando pela comoção de momento.

Foi então que resolvemos sair por aí entrevistando alucinadamente a maior quantia de pessoas possível em busca de frases de impacto sobre o bom velhinho, assim como faz compulsivamente a Folha de S. Paulo desde o domingo, republicada pelo UOL.

Eis o resultado de nossa coleta:

- O Jornalismo Literário se divide em duas partes: antes e depois das matérias sobre bandas de garagem do País de Gales que ninguém conhece, do Caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo.
Gay Talese, jornalista.

- Passei a fazer filmes após ler a coluna de José Sarney às quintas-feiras na Folha de S. Paulo.
Woody Allen, cineasta.

- Jamais esqueceremos a importância que Octávio Frias de Oliveira teve para a Guerra do Vietnã.
Robert McNamara, ex-Secretário de Estado dos States.

- Eu inventei a imprensa, mas o Tavão inventou o jornalismo.
Gutemberg, psicografado com a ajuda do espírito André Luiz.

- Eu só dancei Besame Mucho com Bernardo Cabral depois de treinar com Octávio Frias de Oliveira.
Zélia Cardoso de Mello, ex-ministra.

- Ninguém nunca foi tão fundamental para a cultura brasileira quanto Octávio Frias de Oliveira.
Rodriguinho, do Molejo.

- Sem dúvida, o maior incentivador do esporte no Brasil de todos os tempos.
Baloubet du Rouet, cavalo.

- Tavão, por você, eu dançaria tango no teto.
Frejat, cantor.

- Na cama era o maioral.
Cicciolina, atriz.

- I still feel the taste of your balls in my mustache. I miss you, Big Tave.
Boy George, cantor.

- Tavão? Gatinhuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!!!!!!!!!!!!!!! Beijaum no seu coraçaum!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Richarlysson, jogador do São Paulo Futebol Clube.

- O que é imortal não morre no final.
Sandy, cantora.

- A conduta de manter uma quantidade exorbitante de frilas fixos, que na prática é contratar gente sem pagar os direitos, foi e continua sendo um exemplo para todas as redações do planeta.
Jason Blair, ex-jornalista.

- E, à beira do Rio Jordão, Octávio turvou a água sagrada de Abraaão, pai de Jacó, genro do Oliveira, pai do Atanagildo, olhou para os vendilhões do templo e disse: "É muito mais jornal".
Carta de São Paulo aos coríntios.

- Perdi o meu maior cabo-eleitoral. Mas não conta pra ninguém.
José Serra, governador e mordomo de filme de terror.