DE AURORAS E ENCRUZILHADAS
Reza o clichê que todo bom astronauta norte-americano sonhava justamente em ser astronauta quando criança. Após o sonho realizado, ele provavelmente tentaria o senado por algum estado perdido entre o Atlântico e o Pacífico. E aí viriam as secretárias amantes, os escândalos sexuais, os filhos obesos viciados em drogas e tudo mais que representa o legítimo sonho americano.
Mas devido a uma ligeira incompatibilidade de latitude, Marcos Pontes - o astronauta que é brasileiro e que, portanto, não desiste nunca (será que até em nave espacial vai ter propaganda da Petrobrás?) - provavelmente não sonhou em ser astronauta quando pequeno. Digo por experiência própria: não tenho um só amigo que pretendeu entrar em órbita durante a infância. Apontar o dedo para as Três Marias na esperança de que uma verruga nascesse na ponta do meu nariz foi o ápice de meus anseios além estratosfera.
Quando pequeno, lembro que no meu mundo existiam apenas quatro profissões: bancário (porque o meu pai era bancário), professor (porque o meu pai foi também professor), caminhoneiro e cantor. Porque para mim era assim fácil e meio óbvio que o Aguinaldo Rayol um dia ficou em dúvida entre essas quatro carreiras e, por uma fatalidade qualquer, optou por cantar em casamentos e apresentar o Festa Baile todo sábado à noite no Canal 2.
Em todas as brincadeiras, ou eu tinha um Fusca verde 65 e era bancário, como meu pai, ou, quando o espírito aventureiro baixava e eu resolvia explorar os cantos do quintal, caminhoneiro. Esta seria uma versão mirim e mais romântica do Born to be wild. Eu via aqueles caminhões gigantescos no Super Trunfo e fazia de conta que também tinha a minha Scania, o meu Kenworth, o meu Freightliner carregados de coisas importantes.
Dez voltas no jardim bastavam para ir de Jundiaí a São Paulo. Havia uma encruzilhada ao final da rampa, e eu sempre entrava ali com medo de bater em outro caminhão imaginário que porventura aparecesse da parede do vizinho.
Convinha olhar para os lados.
Hoje, à distância, fica a impressão de que o que menos importou foi a escolha do que fazer da vida. Do volante imaginário para a lauda, a encruzilhada segue intacta. Das verrugas que a gente guarda no porão da memória, mantém-se a cumplicidade das Três Marias.
Reza o clichê que todo bom astronauta norte-americano sonhava justamente em ser astronauta quando criança. Após o sonho realizado, ele provavelmente tentaria o senado por algum estado perdido entre o Atlântico e o Pacífico. E aí viriam as secretárias amantes, os escândalos sexuais, os filhos obesos viciados em drogas e tudo mais que representa o legítimo sonho americano.
Mas devido a uma ligeira incompatibilidade de latitude, Marcos Pontes - o astronauta que é brasileiro e que, portanto, não desiste nunca (será que até em nave espacial vai ter propaganda da Petrobrás?) - provavelmente não sonhou em ser astronauta quando pequeno. Digo por experiência própria: não tenho um só amigo que pretendeu entrar em órbita durante a infância. Apontar o dedo para as Três Marias na esperança de que uma verruga nascesse na ponta do meu nariz foi o ápice de meus anseios além estratosfera.
Quando pequeno, lembro que no meu mundo existiam apenas quatro profissões: bancário (porque o meu pai era bancário), professor (porque o meu pai foi também professor), caminhoneiro e cantor. Porque para mim era assim fácil e meio óbvio que o Aguinaldo Rayol um dia ficou em dúvida entre essas quatro carreiras e, por uma fatalidade qualquer, optou por cantar em casamentos e apresentar o Festa Baile todo sábado à noite no Canal 2.
Em todas as brincadeiras, ou eu tinha um Fusca verde 65 e era bancário, como meu pai, ou, quando o espírito aventureiro baixava e eu resolvia explorar os cantos do quintal, caminhoneiro. Esta seria uma versão mirim e mais romântica do Born to be wild. Eu via aqueles caminhões gigantescos no Super Trunfo e fazia de conta que também tinha a minha Scania, o meu Kenworth, o meu Freightliner carregados de coisas importantes.
Dez voltas no jardim bastavam para ir de Jundiaí a São Paulo. Havia uma encruzilhada ao final da rampa, e eu sempre entrava ali com medo de bater em outro caminhão imaginário que porventura aparecesse da parede do vizinho.
Convinha olhar para os lados.
Hoje, à distância, fica a impressão de que o que menos importou foi a escolha do que fazer da vida. Do volante imaginário para a lauda, a encruzilhada segue intacta. Das verrugas que a gente guarda no porão da memória, mantém-se a cumplicidade das Três Marias.
