Quinta-feira, Julho 03, 2008

AS VEIAS FECHADAS DA AMÉRICA LATINA

Do enviado a Miami, sem gravata amarela

Pois é. Quis o destino que eu, sempre tão esquerda Jack Daniels, sempre tão quase-revolucionário de botequim, fizesse minha primeira viagem internacional para Miami, paraíso dos aspirantes a Roberto Justus. Cabe-me a ventura de ter vindo a trabalho e não a passeio ou compras – aliás, muito menos a compras, e que me perdoem as 15 pessoas que souberam da empreitada e que tentaram me encomendar quinquilharias. Não, não vesti a gravata amarela, última moda entre os executivos que têm a Flórida como símbolo de status.

Veja se essa vida não é irônica: por ser um vôo de fim de junho e, conseqüentemente, de fim de férias, as Tia Augusta e Stella Barros da vida fizeram o favor de lotar o meu redor de adolescentes nhenhenhéns no avião, todos com destino à Disneylândia. Pior: ainda no aeroporto de Miami, passei duas horas na fila da alfândega americana junto da Hebe Camargo (fotos no Flickr em breve), que, com seu cabelo tão amarelo quanto um pudim estragado, tirava fotos com a rapaziada e distribuía o seu chavão favorito: “Obrigado, gracinha”, “Também adoro vocês, gracinhas”, e por aí vai.

Faz um calor abismal em Miami. Como a temperatura é em Farenheit e eu fugia das aulas de Termologia, suspeito que esteja por volta de 32 graus Celsius (sempre quis ter um cachorro chamado Celsius), sem o menor indício de vento.

Falando em termômetro, dois fatos relevantes ocorreram na América Latina nesta quarta-feira e que de alguma forma me fizeram sentir com força a quentura de nuestra latinidad. Primeiro, o desseqüestro daquela tia colombiana chamada Ingrid Betancourt (a imprensa já torcida pela soltura dela porque não agüentava mais ilustrar estas notícias com as mesmas fotos de seis anos atrás, quando ela foi presa). Segundo, o futebol, com a conquista da Libertadores da América pela primeira vez por um clube equatoriano, a Liga Deportiva Universitaria, a LDU, sobre o Fluminense.

Com a notícia de que Ingrid Betancourt estava livre, muita gente do trabalho parou para ver TV – o escritório está cheio de colombianos aqui, e eles gostam tanto de política quanto nós de futebol. A grande polêmica ficou por conta da discurso de Ingrid, que agradeceu a todo mundo, menos ao presidente da Colômbia, Álvaro Uribe.

À noite, fui com o amigo Alvez ver o Flu x LDU num bar parecido com qualquer um dos Jardins (só que a era comida boa), com uma diferença e uma curiosidade. A diferença é que vi a decisão por pênaltis ao som alto de remixes de Duran Duran, porque eles não desligam a música pra ver o jogo. Não tem jeito, eles não entendem a liturgia do futebol. A curiosidade, que provavelmente jamais vou repetir na vida, é ver a conquista do time do Equador ao lado de ao menos cinco equatorianos fanáticos pela LDU. Ao fim da partida, ficaram todos bêbados, saíram berrando e não paravam de ligar aos amigos no Equador, aos prantos. Eu entendo esses equatorianos. Quando a gente está longe de casa, gosta um pouquinho mais dela.

Na saída do bar, encontramos uma colombiana que trabalha no escritório. Tocamos no assunto Ingrid Betancourt para ouvir, de bate-pronto: “Aquella grã-puta!!!”. A colega ficou uns 15 minutos ininterruptamente falando mal da ex-seqüestrada. A moça em questão é uma uribista fanática, rival político de Betancourt. Saí correndo porque minha religião não permite essas coisas, tá louco. O fato é que provavelmente a última vez em que a América Hispânica esteve duas vezes com tanta evidência na mídia mundial no mesmo dia foi quando o Francisco Pizarro desceu da caravela e matou uma rapeize morena ali pelas bandas do Peru.

Bom, por hora é o suficiente. Fico aqui durante o 4 de julho - agitar uma bandeira de Cuba durante a marcha e ser deportado ou não? - e no fim de semana, quando pretendo esticar até Palm Beach para tirar fotos na loja onde o Henry Sobel roubou umas gravatas. Talvez eu roube uma amarela. Que o Roberto Justus esteja com vocês.



Segunda-feira, Junho 30, 2008

A DEBACLE PSICOLÓGICA DE CAIUS CUERUS

Sei que já comentei por aqui sobre o jornalista latino Caius Cuerus, mas já não me lembro de quando foi a última vez. Faz tempo. Recordo de quando ele era só um menino idealista do Cangaíba. Pregava o amor proletário e, na menor discussão política que aparecesse, tirava uma foice e um martelo do bolso, subia na mesa e cantava a Internacional em oito línguas eslavas, depois em espanhol com sotaque cubano e, por fim, acendia um charuto. Tinha pretensões de mudar o nome do Cangaíba, distrito onde nasceu, para Caiogrado.

Pois bem, me refiro a Caius Cuerus para dizer que fiquei meses sem ter sinal de vida dele. Desapareceu completamente. Quando seu nome vinha à tona em nosso grupo de amigos, as teias de aranha sopravam dentro de nossos ouvidos. Até que neste fim de semana, visitei por acaso a birosca Princesinha dos Jardins e o encontrei completamente alcoolizado, chamando Jesus de Genésio. Estava só. Bebia uma garrafa de Drehar. Postei-me em sua frente, e ele, ao me ver, apenas perguntava:

- Por quê? Por quê? Deve haver uma conciliação...

Foi então que compreendi o seu sumiço. Pausa para o suspense: Caius pediu para eu sentar, virou para o garçom e disse:

- Ô Camisa 10, faz o favor de descer mais um copo, que o companheiro aqui vai sorrir enquanto eu passo com minha dor.

Vou explicar o espiral de amargura caioquerano. Nosso amigo tem dois ídolos absolutos: Fidel Castro, comandante-em-chefe mexicano de Cuba (ou seria Jamaica?), e Caetano Veloso, cantor brega nordestino. Tem dias em que Caius acorda meio Fidel; em outros, caetana por aí. Eis porém que de repente que os seus ídolos saem na porrada na mídia. Desde que leu a notícia, Caius Cuerus bebe oito garrafas de Drehar por dia.

Veja bem, ilustre leitor, é mais que uma questão de idolatraria: é uma questão psicológica. De um lado, o superego repressor do jornalista Caius Cuerus. Do outro, seu id. Resta saber qual é qual e quem tem razão. Seria o lado fidélico de Caius Cuerus o seu Superego? A responsabilidade do comandante em implementar a revolução numa ilha paradisíaca é notória, e tem que ter muita doutrina e responsabilidade para conseguir consertar aqueles carrões americanos dos anos 50 que servem como táxi. Por outro lado, a revolução é libertadora, chega como um impulso, é como a Yoná Magalhães correndo rumo ao infinito no fim de Deus e o Diabo na Terra do Sol, uma coisa que vem do Id.

Porém, permita-se divagar caetanicamente: há algo mais policialesco, repressor e menino-brasileiro que desconstruir a Bossa Nova em versos tropicalistas? Superego é Caetano, a que será que se destina? Mas Caê também é Id. Quando Caius Cuerus desce a Baixa Augusta descalço e beija cinco emos no Ibotirama após cantar everybody knows that our cities were built to be destroyed, ele dá vazão ao seu lado sensível.

Estas são as dúvidas que angustiam meu ilustre amigo. Seu terapeuta behavourista está analisando o caso antes de dar um veredito. Seu mentor esotérico o aconselhou a acender uma vela preta ao Exu Babeta na esquina da Alameda Campinas.

Portanto, você que, como eu, é amigo de Caius Cuerus, não o reprima. Pague a ele uns pedaços de pizza na Bela Paulista para ele ficar Odara. E prometo voltar em breve para divulgar quem vai o apoio de Caius Cuerus, tão logo ele se decida.



Segunda-feira, Junho 23, 2008

“É esse o sentido da segunda pergunta”, responde o general, sem tirar a mão da maçaneta da porta. “Ei-la: o que ganhamos com nosso orgulho e nossa presunção? O verdadeiro significado de nossa vida não terá sido a atração irresistível por uma mulher que morreu? É uma pergunta difícil, eu sei. De minha parte, não sei o que responder. Em minha vida experimentei tudo, vi tudo, a paz e a guerra, coisas miseráveis e grandiosas; vi um covarde como você e um presunçoso como eu; vi desencadearem-se lutas e restabelecerem-se compromissos. Mas quem sabe se, no fundo, o significado de nossa vida e de todas as nossas ações não tenha sido o laço que nos unia a alguém que nos magoou – o laço ou a paixão, chame-o como quiser. É esta a pergunta? Sim, é esta. Gostaria que você dissesse”, prossegue baixinho, como se receasse ter alguém às suas costas escutando suas palavras, “o que acha disso. Não acredita que o significado da vida é simplesmente a paixão que um dia invade nosso coração, nossa alma e nosso corpo e que, aconteça o que acontecer, continua a queimar eternamente, até a morte? E não acredita que não teremos vivido em vão, se um dia sentimos esta paixão? É aí que me pergunto: a paixão é de fato tão profunda, tão má, tão grandiosa, tão desumana? Será que realmente é desejar uma pessoa específica, ou é apenas o próprio desejo? Será que consiste em querer uma criatura bem definida, a mesma e misteriosa criatura que pode ser boa ou má – tanto faz -, pois não são suas ações nem suas qualidades que vão modificar a intensidade de nosso sentimento? Esta é a pergunta. Responda, se for capaz”, diz, levantando a voz.

“Por que você me pergunta?”, responde calmamente o hóspede. “Você sabe muito bem que é assim.”

E examinam-se longamente, com atenção.

O general respira com dificuldade. Abaixa a maçaneta. O vestíbulo espaçoso está riscado de sombras e luzes ondulantes. Descem os degraus em silêncio, os criados correm até eles levando-lhes lanternas, o capote e o chapéu de Konrad. Diante do portão, as rodas do carro rangem no cascalho. Konrad e o general despedem-se em silêncio, com um aperto de mão e uma profunda reverência.

As brasas, Sándor Márai.



Quinta-feira, Junho 19, 2008

A SELEÇÃO BRASILEIRA, O NABO E AS FACAS GINSU

Talvez o ilustre e futebolístico leitor não se lembre, mas houve um tempo em que torcer para a Seleção Brasileira era divertido. Eu ia dizer que não faz tanto tempo assim, mas talvez isso já seja mentira.

Lembro-me de quando eu era pequeno. Uma das primeiras e parcas lembranças da tenra infância que o menino Vives guarda consigo foi durante a Copa de 86. Tal qual um Caio Quero, eu não gostava de futebol - pudera, tinha só cinco anos - mas adorava aquela tal copa do mundo, especialmente quando o Brasil ganhava, porque o céu se enchia de balões. Era uma orgia de cores e formatos, e a meninada correndo nas ruas atrás dos que iam caindo. Aos olhos de um moleque assustado de cinco anos que acompanhava tudo da sacada de casa, era como se o mundo fosse uma coisa extraordinariamente bela. Para mim aos cinco anos, ao atravessar o portão de casa, as pessoas eram todas felizes e soltavam balões.

Durante minha infância e adolescência, um jogo do Brasil, mesmo que amistoso chinfrim, era um evento. Acompanhávamos a escalação, torcíamos para que os jogadores do nosso time fossem convocados e, no dia do jogo, comprávamos pipoca e nos juntávamos na frente da TV na casa de algum, faltando na escola, se necessário.

Hoje, relutei em deixar de torcer para o Brasil, mesmo quando exercer este ato de fé passou a ser algo brutalmente artificial. Mas a gente não pode lutar contra certas coisas, e o fato é que não tenho a menor identificação com esta e as últimas Seleções Brasileiras, esteja ela ganhando ou perdendo.

Para este que vos escreve, dois fatores são os grandes responsáveis por esta ausência de carisma da seleção que sempre foi a mais carismática de todas, a brasileira: a clara transformação do time em balcão de negócios, dos quais a torcida não se beneficia e muitas vezes é prejudicada, como os amistosos caça-níqueis que ocorrem longe do país e de madrugada, e a superexposição dos craques.

Sobre este último, nos próximos anos teremos a curiosa experiência de acompanhar a aposentadoria da primeira geração de craques superexpostos pela mídia e pela publicidade. Até outro dia, o craque fazia propaganda de pilha, no máximo. Hoje, os principais jogadores têm dois ou três contratos vitalícios com a Nike, a Nestlé, a Gillette, Hollywood, a CIA, etc. Quando isso ocorre, o craque é vendido pelos jornais e pelas propagandas como um representante de Deus, da mesma forma como nossas avós acreditavam nos milagres da Menina Izildinha ou do Padre de Tambaú. Aí vem um fracasso, como o nabo que foi a Copa de 2006 para nós, e eles todos então parecem ridículos, pois não corresponderam à expectativa.

Veja bem, é como as Facas Ginsu. A propaganda dizia que a mais babeta das Ginsu era capaz de cortar um prego. Mas se você comprar o kit e não conseguir com ela cortar um prego, vai achar que todas as facas Ginsu são ridículas, mesmo que elas cortem tomate muito bem. E nunca mais vai querer comprar Facas Ginsu. Ronaldinho Gaúcho é uma Faca Ginsu. Hoje está com depressão, porque não dá para segurar um tranco desses.

Junto disso, temos a saturação da imagem. Ninguém agüenta mais ouvir falar em Ronaldo Picanha, e olha que ele não joga faz tempo. Primeiro, estava gordo. Depois, jogou gordo e se contundiu novamente no joelho. Quando todos achavam que ele ia ficar longe da mídia por um tempo, Picanha é pego com umas superfêmeas num motel chamado Papillon, no Rio. E depois volta com a namorada, que o perdoa. E depois ele é visto com outra mulher. Quando ele se aposentar, vai fazer falta nos gramados, mas vai ter muita gente dando vivas por ter que agüentar menos o Ronaldo Picanha na mídia.

Diferente de mim e da maioria, o menino que hoje tem cinco anos, daqui a 20 vai olhar para trás e se lembrar de como a seleção brasileira era enigmaticamente chata e de como ainda haviam algumas pessoas estranhas que insistiam em torcer para ela. A lamentar.



Terça-feira, Junho 17, 2008

SORRYPERIFERIA LACONICAMENTE HOMENAGEIA OS CEM ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA E TUDO QUE ELA REPRESENTA AO BRASIL















P.S.: Standcenter tirada por http://www.flickr.com/photos/renatopborges/



Segunda-feira, Junho 16, 2008

UM POST ABSOLUTAMENTE SEM SENTIDO

Sonhei que fui incumbido de voltar no tempo para a fazer a autópsia de Antônio Carlos Magalhães, uma vez que alguém tinha-me encomendado a biografia dele. Na autópsia, coisas importantes seriam descobertas. Tento recordar de como eu sabia que era importante comparecer à autópsia, se alguém me disse durante o sonho ou se eu investiguei isso durante todo o processo, mas, no fundo, acho mesmo que é daquelas informações com as quais a gente já entra no sonho. Sabe quando você joga Detetive ou Scotland Yard, tira uma carta e que lá diz uma informação importante? Então, deve ter sido por aí.

Mas, voltando ao sonho, de repente eu me peguei em Salvador às vésperas da morte dele (talvez ele tenha morrido em São Paulo, mas ninguém disse que este sonho é lógico). Quando ele enfim esticou as canelas, tentei entrar na sala de autópsia, mas fui impedido por um leão de chácara maior que eu. Lá dentro eu vi umas negras baianas vestidas como nos rituais de umbanda, eu disse que tinha papo com a rapaziada da umbanda, e me deixaram entrar.

Colado ao peito de ACM havia muitos papéis, os quais eu pude checar enquanto as mães de santo rezavam e cobriam o corpo dele com arruda. Nos papéis, muita mandinga pra manter o corpo fechado e alguns documentos sigilosos, acho que de contas no exterior. Quando fui roubar os papéis, tomei uma comida de uma das mães de santo, que disseram que o painho seria enterrado com tudo aquilo. Tive então que ir pra fora esperar o enterro, pra depois violar o túmulo e enfim pegar a papelada e escrever a biografia.

No velório, descobri que estava em Recife, não em Salvador, uma vez que os funcionários da empresa onde trabalho que moram em Pernambuco foram até lá para me cumprimentar.

Fui acordado por um telefonema do meu estagiário.



Terça-feira, Junho 10, 2008

SEMELHANÇAS


Senador Álvaro Dias e Agnaldo Rayol: testosterona à flor da pele

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Carlos Minc...


... e ET: Amazônia, minha casa, telefone.

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Dilmão Roussef...


... e Roz, do Monstros S/A: bonito mesmo é se impor.



Sexta-feira, Junho 06, 2008

SOBRE O FUTEBOL, O CURÍNTIAS E A ESPÉCIE HUMANA

Reza o mais adorável dos jargões futebolísticos que o futebol é o microcosmo da vida. Nada contra os outros esportes - mentira, eu tenho tudo contra muitos, a começar do tênis -, mas talvez nenhum outro campo da vida nos mostre de forma tão humana e imprevisível o que só a própria imprevisibilidade dos seres humanos consegue espelhar.

Veja, por exemplo, o caso do Curíntias. Rebaixado à Série B no ano passado, o mais vexaminoso de sua história, agora contrariou até o mais babeta dos corintianos fanáticos e provavelmente vai ser campeão da Copa do Brasil com um time que está longe de ser bom. Em que outro esporte isso poderia ocorrer? Nenhum, digo, sem medo de errar.

Vou assumir aqui - mas não conta para ninguém - que no fundo tenho simpatia profunda por esta saga corintiana, embora seja um palmeirense clássico de segunda geração. Não chego a torcer para o Curíntias ser campeão, mas acho admirável. Tem como não se identificar com alguém que come a farinha do aipim que o diabo amassou e consegue dar uma volta por cima dessas? É como assistir ao Rocky sem se comover com o personagem de Stallone, o pé rapado que treina piadas na frente do espelho pra tentar conquistar a atendente da loja de ração pra cachorro por quem ele é apaixonado. E que, sem mais nem menos, tem na sua frente a grande chance da vida, uma chance gigantesca, monumental.

Alguém vai dizer que comparo o futebol ao cinema e não ao mundo das pessoas reais. Discordo, e explico: o que seria da história de Rocky Balboa se não fosse tão humana? Rocky é comoventemente pé rapado. Uma das muitas graças do cinema está em extravasar tudo aquilo que é presente na nossa vida, mas que a gente não vê no todo, só aos pedaços. O bom filme é aquele que pega todos esses pedaços de vida e mostra o quão profunda e tão bela a da gente um dia poderá ser, se a gente fizer algo de bom com ela. Quantas metáforas de vida existem em Rocky Balboa?

O futebol é diferente do cinema porque não traduz estes sentimentos, apenas os replica em menor escala nos estádios, nos vestiários e nas arquibancadas até dentro das quatro linhas (aliás, "dentro das quatro linhas" é um baita clichê de mesa redonda). O cinema empacota tudo e mostra como pode ser belo, ou único, ou assustador, dependendo do gênero. O futebol não muda nem empacota nada da vida real, mostra tudo do jeito que é, só que diferente.

Na próxima quarta-feira, o Curíntias pode ser campeão, e seria um comoventíssimo campeão. No entanto, enfrenta o Sport Club do Recife, pela 55ª vez desacreditado dentro desta competição, e que contra tudo e contra todos chegou até a final. E se o Sport for o clube a levantar a taça, o futebol só vai confirmar tudo isso que acabei de escrever, só que de maneira ainda mais convincente.



Terça-feira, Junho 03, 2008

BLAIRO MAGGI, O BLAIRO NOBRE DA GALINHA AZUL


Lula e seu amigo governador do Desmato Grosso

O Brasil vive um momento único na história. Falam de um potencial econômico enorme e que aos poucos se deslancha, da quantidade exorbitante de pobres da classe D que migram como pombos para a C, de pobres da classe C que migram como gaivotas para a B (perceba como a qualidade das aves vai subindo. Ao chegar à classe A, os pobres viram faisão), etc. Até aquelas entidades místicas chamadas agências de avaliação de risco, que dão as cartas na economia mundial, passaram a dizer que, aqui em Buenos Aires, agora tem-se oportunidades interessantes para as grandes empresas estrangeiras fazerem uma fezinha no bicho. Mas o fenômeno ao mesmo tempo assustador e fascinante é que caminhamos para o mundo desenvolvido simultaneamente em que não temos indício algum de que muitos dos problemas crônicos, sinais tradicionais do nosso terceiromundismo, estejam sendo corrigidos: violência extrapolante, educação precária, polícia e justiça viciadas, o coronelismo e outros detalhes deselegantes.

Se Lula fosse um calouro do Raul Gil, e eu um jurado que sentasse ao lado de Decio Pitinini e Elk Maravilha para avaliá-lo, ele ganharia uma nota cinco e meio, talvez seis. É uma nota pífia, de fato, mas certamente seria a nota mais alta que um governo brasileiro teria recebido, o que é um sinal claro de que há 508 anos que o Brasil navega em águas merdejantes. Lula então pegaria o microfone e falaria - rapaz, como ele adora falar isso - que "nunca na hiftória deffe paíf houve um governo tão bom quanto efte". E ganharia beijos da Elk e aplausos do Décio Pitinini.

Mas desta vez não estou aqui pra falar bem do Lula. Vou me ater ao que ele fez de errado. Lula seguiu a cartilha de jogar o jogo típíco da política nacional: esqueça o passado, junte-se aos seus inimigos, deixe-os roubar e governe o que der pra governar. Até entenderia que um pouco disso é necessário em nome da governabilidade, mas Lula o PT seguiram isso até a alma. Com o apoio de latifundiários, coronéis e bandidos regionais, ele consegue permanecer no poder e, como não seria diferente, é obrigado a fazer tantas concessões que acaba por não mudar nada das questões mais desesperadoras. Logo, Lula não deixa também de ser mais do mesmo.

Vejam, por exemplo, sua nova amizade com o governador Blairo Maggi, o Blairo nobre da Galinha Azul. Nascido no Rio Grande do Sul do Norte - vulgo Paraná - Blairo Maggi foi um dos muitos sulistas que migraram com a família para plantar coisas no Centro-Oeste. Hoje há quem diga que ele é o maior agricultor de soja de mundo. É o exemplo clássico do self made man, expressão que abomino, uma vez que exemplifica um vencedor como se ele se destacasse em meio de milhões de perdedores. Hoje governa o estado do Desmato Grosso.

Pois bem, Blairo Maggi foi eleito pelo Greenpeace como o maior responsável pelo desmatamento da Amazônia Legal, fato confirmado pelo Ministério do Meio Ambiente nesta segunda-feira. Maggi fala abertamente em continuar desmatando em nome do avanço econômico do estado que governa (e do crescimento de seu próprio negócio, a soja), uma vez que "os matogrossenses têm o mesmo direito de qualquer brasileiro de querer uma vida melhor", como se a "vida melhor" fosse acabar com a floresta, ficar rico vendendo madeira, plantando soja e transformando o Mato Grosso em um estado cheio da grana e completamente poluído.

Fosse um sujeito realmente inteligente e bem intencionado, o governador do Mato Grosso assumiria a vocação que seu estado tem, ao norte, em ser uma reserva florestal. É o diferencial, e não o problema da região. Já temos mil outras regiões no mundo dominadas pelo agronegócio. Deixar um espaço para a Amazônia Legal por ali talvez fizesse dos matogrossenses pioneiros em preservação mundial e, enfim, diferenciados e respeitados pelo restante do país - sim, porque o Mato Grosso, em boa parte do Brasil, é sinônimo de latifúndio, desmatamento e pistolismo (acabei de cunhar esta palavra) de aluguel.

Quando a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, peitou Maggi, este ligou para seu grande amigo Lula, que tomou as dores dele, mais uma vez em nome da governabilidade e todo aquele papo furado de sempre. Marina caiu, Maggi segue forte na queda de braço, de mãos dadas com o presidente.

Sinto saudades do Lula de 89. Houvesse um investment grade moral, Lula teria sido rebaixado.



Quinta-feira, Maio 29, 2008

UMA OBSERVAÇÃO PERTINENTE

Sabe o que eu considero uma das grandes invenções da humanidade? A escada. Não a escada Magyrus, nem a de beliche. Me refiro a qualquer escada de cimento, barro ou terrão que tem por aí. Imagine uma convenção de homens de neanderthal ou cro-magnon discutindo a inviabilidade de se estar aqui embaixo e querer chegar ali em cima. Aí chega um e diz: “Se a gente criar uma elevação de uma dúzia de polegadas na frente desta outra elevação, e assim sucessivamente, não acham que a gente chega ali?” Provavelmente foi quando construiu-se o primeiro sobradinho da humanidade, fez-se o primeiro churrascão na laje e o cidadão em questão foi eleito o funcionário do mês em Stonhage.

Bem, eu não tenho a menor idéia do porquê eu estou falando disso.



Quarta-feira, Maio 28, 2008

MAIO DE 68

Embalado pelo estupor efemérico que este mês apresenta em cada ano que acaba em 8, SorryPeriferia resolveu entrevistar aquele que é a fonte principal de 75 de cada 20 matérias sobre tudo o que ocorreu entre abril e junho do oitavo ano dos 60: Zuenir Ventura.

SP: Fala aí, seu Zuenir, firme nesse guidão?

ZV: Opa, só azarando a rapeize. Satisfação muito grande dar entrevista pra esse blog, do qual eu e toda minha geração somos fãs desde o Golpe, viu?

SP: Fico feliz, fico feliz. Seu Zuenir, já vou logo perguntando: qual a sua opinião sobre maio de 78?

ZV: Ããããã.... você diz.. maio de 68?

SP: Não, não, todo mundo te pergunta isso. Na verdade eu queria saber a sua opinião sobre maio de 78 mesmo.

ZV: Bem, deve haver algum engano. Eu só dou entrevistas sobre maio de 68. Não sei nada sobre maio de 78.

SP: Ah não, seu Zuenir. Vamos lá, uma opiniãozinha só. Vai ser bom para a sua imagem, que virou sinônimo apenas de sexo, drogas, MPB e barricadas. Vou lhe ajudar: maio de 78 tinha a Dancing Days, o John Travolta, a Copa da Argentina...

ZV: Ah sim! Havia realmente algo importante! Eram as comemorações dos dez anos de maio de 68!

SP: Não, não, bróder. Cê não entendeu: estou dando uma oportunidade para você se desvencilhar dessa loucura que deve tomar conta da sua vida a cada dez anos, que é falar sobre maio de 68. Você gostaria de falar de outra coisa? Pode escolher...

ZV: Bem... nesse caso, podemos dialogar sobre os preparativos que ocorreram em abril de 68...

SP: ...

ZV: ...ou talvez sobre a limpeza das ruas que teve início em 1 de junho de 68...

SP: Ok. Chega de efemérides. Vamos falar de outra coisa. Diz aí a sua opinião sobre o DJ Marlboro.

ZV: Quem?

SP: O DJ Marlboro, aquele um pra quem você fez um depoimento no Arquivo Confidencial do Faustão...

ZV: Ah sim! O DJ Marlboro! Teve grande importância em mario de 68...

SP: Oi?

ZV: Sim, foi o primeiro artista a evocar o Batidão Revolucionário lá no aparelho do Marighella! O Jefferson del Rios tava lá quando o Geraldo Vandré ficou puto com o ritmo de funk de caminhando e cantando e seguindo a canção. Mas a Marília Pêra ficou doidona, desceu até o chão e depois se trancou no quarto com o Zé Dirceu, que tava rouco depois de fazer aquele discurso na Cinelândia em cima do Aero-Willys do Vianinha...

SP: Ok, vamos encerrar por aqui. Uma última pergunta, seu Zuenir: ao te dar este nome, seu pai queria deixá-lo eternamente em último na chamada da escola?



Quinta-feira, Maio 22, 2008

BAIXA GASTRONOMIA EM EVIDÊNCIA

Absolutamente por acaso, e dotado de um espírito aventureiro que extrapola a incoerência degustativa, descobri que petit gateau com cerveja Heineken é uma combinação extraordinária.

Endosso, recomendo e me convido para testar a experiência no programa do Ronnie Von.



Terça-feira, Maio 20, 2008

UM ADENDO AOS POSTS ABAIXO: A ÁUSTRIA LÊ SORRYPERIFERIA

Você pode não acreditar, mas o SorryPeriferia é lido em outros países.

E você pode acreditar menos ainda, mas a Áustria é o quinto país que mais lê SorryPeriferia. Pois é.

De acordo com o ranking do BlogCounter, dos 13386 visitantes únicos deste blogue desde que instalei o sistema (há 11 meses) até o momento em que escrevo este post, 46 deles vieram de um domínio austríaco.

Na ordem do ranking de acessos estão Brasil (óbvio), Estados Unidos, Portugal, Itália e Áustria.

Eu ia dizer que não posso me surpreender se a Gestapo vier bater à minha porta qualquer dia desses, mas, em nome dos austríacos legais, que certamente existem, eu não vou dizer.

Tá, eu já disse. Eu não ia perder essa piada.



OS PORÕES DE UMA NAÇÃO - Parte 2


Flagrante da Miss Áustria 1939*

É isso o que dá demorar pra terminar essa história de falar mal da Áustria. Neste ínterim (sempre quis usar esta palavra) entre o post anterior e este de agora, um austríaco doidão resolveu poupar a família de sua própria ruína financeira. A solução que ele encontrou: liquidar a machadadas sua mulher e filha, claro. Na seqüência, pegou o carro e foi até a casa dos pais para selar-lhes o mesmo destino e, por fim, fez uma visitinha básica e definitiva à casa dos sogros com o seu novo grande amigo, o machado. O homicida trabalhava no mercado financeiro. Pensamento rápido e solução pragmática é isso aí. Queria ver o Roberto Justus demitir esse cara...

(Sobre este caso clique aqui)

O grande lance desta história é o seguinte: tem-se lá um país de quase 9 milhões de habitantes, todos razoavelmente ricos e corados vivendo em suas cidadezinhas tranqüilas com vista para as neves permanentes dos Alpes. Tirando pelos porões e machadadas, o Império do Leste (do alemão Österreich, ou Áustria), havia sido manchete poucas vezes nas últimas décadas. Uma delas, para discutir um grande problema do país, que nada mais é do que saber se os caminhões que chegam dos países vizinhos devem pagar pedágio ao cruzar os Alpes, uma vez que eles contribuem para o asfalto local degringolar.

No papel, tudo é lindo, mas, lá dentro, bem no fundo - eu ia dizer... lá no porão?? - existem problemas mais delicados. Como diriam os Racionais MC: você sai do gueto, mas o gueto não sai de você (a palavra gueto, porventura, é algo que deve incomodar muitos austríacos, como os judeus bem sabem). Há, digamos, um gueto moral que paira sobre o país lá se vão mais de 60 anos. Pelo fato daquele menino antipático de bigodinho estranho ser austríaco ou não, o povo desse país é o menos conformado com o resultado do fim da Segunda Grande Guerra.

Explico.

Discutíamos no bar eu e os amigos Savarese e Leandro sobre tudo isso. Depois, já em casa, às quatro da manhã, toca o telefone. Era um Beguoci atônito: "Vives, acorda." Senti as partículas expletivas tomarem conta da linha telefônica. "Tô lendo um livro agora que fala exatamente daquilo que a gente falava no bar há pouco. Sabe? A Áustria, cara, a Áustria! É o apocalipse em forma de nação! Escuta isso, cara, escuta! (é claro que estou acrescentando um tom rodrigueano ao nosso diálogo, o apocalipse ficou por minha conta)". Contou-me Beguoci que Tony Judt, o autor do livro sobre a Europa no pós-Guerra, afirma que a população austríaca compreendia um décimo de pessoas de todo o Terceiro Reich. No entanto, um em cada dois soldados nos campos de concentração era austríaco. Ui.

Mais que isso: pesquisa realizada em 1991 apontou que 50% da população do país considerava os judeus responsáveis pela perseguição que eles sofreram no passado. O resultado disso: anos depois, o povo austríaco elegia um primeiro-ministro declaradamente antipático aos judeus chamado Jörg Haider. Que conste nos autos: além de minimizar o caos nazista e discriminar imigrantes, Haider usava deselegantes gravatas borboletas.

Pois então fica a sugestão para o nobre primeiro-ministro austríaco Alfred Gusenbauer, fortemente empenhado em mudar a imagem de seu país, para que use alguns euros para um tratamento psicológico coletivo por toda a nação. Façamos os austríacos se libertarem dos fantasmas do passado e entender de uma vez por todas que Hitler era um homem mau, o nazismo não era legal, os imigrantes são legais (sem trocadilho) e que as pessoas podem e devem dar oi ao vizinho sem medo de que lhe perguntem o que seus antepassados fizeram entre 1939 e 1945. Psicologia é a solução. Afinal, Sigmund Freud nasceu na Áustria. Era aí que eu queria chegar.

* Foto roubada do Ground Control.



Terça-feira, Maio 13, 2008

OS PORÕES DE UMA NAÇÃO - Parte 1


Josef Fritzl e seu olhar de rothweiller

Existem países e países nesse mundo. Para cada grande país europeu (grande num conceito amplo da coisa), por exemplo – Inglaterra, França, Alemanha e, com boa vontade, a Itália e a Espanha -, existem outros tantos pequenos que pecam pela absoluta falta de carisma.

Quando pensava, por exemplo, na Bélgica, acabava, na seqüência, por pensar em absolutamente nada. Depois a gente descobre que os belgas foram responsáveis por algumas das mais cruéis relações entre colonizadores europeus e colonizados africanos, até mais do que franceses e ingleses, o que talvez explique esse jeito, digamos, discreto de viver sem ser notado da Bélgica.

Atualmente os belgas conservadores resolveram tirar seu ranço do armário e colocá-los nas ruas: há movimentos separatistas cada vez maiores dentro do país, que já é minúsculo. É como se o bairro do Butantã quisesse se dividir em três em nome de uma tradição de meia dúzia de séculos atrás e que hoje é evocada sem sentido, com medo da globalização, com medo dos imigrantes, com medo, enfim, do que convencionou-se chamar de mundo. É a maneira que a Bélgica conservadora encontrou de, nacionalmente, voltar para o útero da mãe.

Mas o país outrora discreto que agora subiu à tona e que é mote deste post é a Áustria, terra que deu ao mundo tanto Mozart quanto Adolf Hitler.

No dia 24 de agosto de 1984, o austríaco Josef Fritzl pediu que sua filha Elizabeth o ajudasse a carregar um armário até o porão de sua casa, na cidade de Amstetten. Ao entrar no porão, a menina foi trancada, amarrada e estuprada por Josef. De lá Elizabeth sairia apenas em abril de 2008, 24 anos e 7 filhos de seu próprio pai depois.

A história é das mais absurdas que eu e o sensível leitor deste blogue já viu, mas não é dela que eu quero falar. Para quem quiser saber mais sobre o Papai de Rosemary austríaco eu deixo este link com uma reportagem sensacional da revista alemã Der Spiegel, publicada em português pelo UOL (só para assinantes).

No caso impressionante de Josef Fritzl, um dos fatos mais chocantes é: como alguém consegue manter uma família inteira no porão de casa por 24 anos sem que ninguém percebesse? Os vizinhos ouviam barulhos, chegam perto de suspeitar, mas não queriam saber o que se passava. Segue trecho da reportagem da revista alemã:

É claro, também ajudou o fato de (Fritzl) viver em um ambiente, na verdade em um país inteiro, que teimosamente permanece uma sociedade consensual, apesar das muitas mudanças radicais da atualidade, uma sociedade com uma tendência de evitar e encobrir disputas. (...). Mas enquanto os alemães provavelmente chamariam a polícia, preferivelmente de forma anônima (...), os austríacos têm a tendência de olhar para o outro lado. Dada esta mentalidade, não é exatamente surpreendente ouvir a criminologista Katharina Beclin, de Viena, dizer que dos cerca de 25 mil casos de abuso sexual que ocorrem na Áustria a cada ano, apenas cerca de 500 são informados à polícia.

O primeiro-ministro austríaco Alfred Gusenbauer declarou que seu país não pode ser refém de um só homem, o monstro Josef Fritzl. Um não, meu caro: dois. Há meses atrás, outro caso de um austríaco maluco que trancou a menina Natascha Kampusch no porão da própria casa por sete anos. Quando Natascha fugiu de seus estupros, o algoz se matou.

Há alguns anos, outro escândalo sexual colocou a Áustria em evidência. Cerca de 40 mil fotos de pedofilia num mosteiro austríaco chocou a Europa. O bispo do local declarou então que tudo não passava de um “trote infantil”, como bem lembra a Die Spiegel. 40 mil fotos de padres beijando seminaristas me parece algo bem diferente do que tocar a campainha e sair correndo.

(continua)